jeudi, octobre 05, 2006

Literário

Ele estava apreensivo. Fazia mais ou menos dois meses que tinha se inscrito num concurso literário da repartição onde trabalha, feito em homenagem a uma grande autora cearense. Ele havia escolhido um de seus melhores textos, intitulado "Ponto e Vírgula", adaptou e enviou à comissão avaliadora. Estava tão ansioso em participar que protocolou sua inscrição com o número 001, talvez no desejo de que "brevidade" fosse um dos quesitos a serem avaliados.

Os dois meses que separaram a data da inscrição e a divulgação do resultado foram particularmente longos. Aqueles minutos que antecediam o anuncio oficial do resultado, como não poderia deixar de ser, pareciam demorar anos para passar. Os ponteiros do relógio pareciam faceiramente preguiçosos, temerosos de dar mais um passo adiante.

Os olhos vidrados na tela do computador, por onde seria anunciado o resultado. Aperta o botão atualizar no Internet Explorer. Nada. Pressiona o botão F5, como se o computador fizesse alguma diferença entre o botão do teclado e o do navegador, que fazem rigorosamente a mesma coisa. Nada. Praguejou baixinho contra o sistema de informática. Nada.

Quando já havia desistido, a rádio do local de trabalho começa a anunciar os nomes. A tensão, local e arterial, começa a subir. Ouvidos atentos. 1º lugar. Nada. 2º lugar. Nada. 3º lugar. Nada. 4º lugar. Nada. Já havia perdido as esperanças quando ouve o seu nome ser falado pela locutora, como classificado em 5º. Uma sensação de alegria invade o seu peito. Não ganhou o computador ou os livros que ficaram reservados aos três primeiros colocados, mas a simples sensação de reconhecimento já era prêmio o bastante. Um sorriso profundo se desenhou em seu rosto e a felicidade invadiu seu peito. Ele também se tornou mais um blogueiro a deixar o ao nonimato da internet.

Comédias de uma vida longe de ser privada.

dimanche, octobre 01, 2006

Eleições

Lá estava ele, sentado no velho banco da praça. Lembrava-se de quando a conhecera ali mesmo, há tantos anos, num dia de eleições, como aquele. Ele já havia votado, quando ela sentou do seu lado e começou a conversar:

- Em quem você vai votar?
- Eu já votei.
- Em quem você votou?
- No Juscelino Kubitscheck.
- Eu não voto nele não. Perece muito idealista.

E naquele momento ambos se sorriram. Depois de algumas horas, ambos se levantaram e achavam que nunca mais iriam se encontrar.

Acontece que o destino o uniu outra vez, naquele mesmo banco, num outro dia de eleição.

- Olá.
- Oi! Quanto tempo ein?
- É verdade. Parece que você acertou na sua escolha não é? Juscelino foi eleito, e até que ta fazendo um bom governo.
- Verdade.

Mais uma vez se sorriram e conversaram a tarde inteira. Daquela vez, antes de se despedirem, marcaram de se encontrar uma outra vez, afinal, se o destino o fez se encontrarem por duas vezes, deveria ser porque reservava algo pros dois. Pouco tempo depois estavam namorando.

Outra eleição se aproximava, e eles marcaram de se encontrar, antes de irem votar, naquele mesmo banco em que se conheceram. Quando ela chegou, ele já estava lá, esperando. Conversaram um pouco quando ele, meio nervoso, colocou a mão no bolso, para tirar uma caixinha preta. Ajoelhou-se no cimento quente e ali mesmo a pediu em casamento, e ouviu o “sim”.

Antes de votar eles sempre se encontravam naquela praça, como que se fosse pela primeira vez. E como que se fosse a primeira vez, se enamoravam novamente.

Dessa forma muitas eleições se passaram, mas nessa o encontro não se repetiria. Ele fitava o horizonte, nutrindo uma falsa esperança, fonte de uma tolice inerente a alma de cada ser humano. “Ela já era muito idosa”, ele pensava. Uma lágrima escorria pelo seu rosto.

samedi, septembre 30, 2006

Novo Blog

Venho aqui anunciar que estou começando um novo blog, o Considerações Políticas. Quero avisar que continuarei aqui, todos os domingos, postando uma nova crônica, mas também postarei lá, uma vez por semana, e peço a vocês, amigos leitores, que acompanhem e comentem os dois.

Muito obrigado.

dimanche, septembre 24, 2006

"The Way You Look Tonight"

Fazia algumas semanas que eles decidiram comemorar seu quinto aniversário de namoro no café que fica próximo à escada vermelha do Dragão do Mar. De fato aquele ambiente era muito romântico, e foi escolhido a dedo. A iluminação era perfeita, a refeição, soberba, o amor, sublime.

Ele a olhava com paixão. Como ela estava linda sob aquela luz. A cor branca de sua roupa realçava as suas bochechas, que tinham um belíssimo tom de rosa. Como aqueles dois se amavam.

Ela o olhava, deixando o amor transbordar pelos seus olhos. Admirava a forma que ele a observava. Divertia-se com classe improvisada dele numa situação que ambos não estavam acostumados a viver.

De repente alguém lá embaixo liga o som de um carro, e a musica que toca não poderia ser mais oportuna. A voz de Rod invadia o ambiente. De fato, como Stewart falava, ele a amava “just the way you look tonight”. Enquanto ele cantarolava a música, um tanto desafinado, naturalmente, ela se sorria, com visível felicidade por aquele dia especial.

Depois partiram rumo à ponte dos ingleses. Embora aquela paisagem seja extremamente bonita, ele não conseguia tirar os olhos do rosto dela. Como ele gostava da forma que a lua iluminava seu sorriso. E ele sorria também, enquanto diversos versos de Tom Jobim vinham à sua mente. As vezes ele deixava que alguns lhe escapassem pelos lábios. Ela sorvia cada palavra com um prazer indizível.

As horas passaram rapidamente, mas eles permaneceram ali, abraçados, olhando para o horizonte, naquele momento o mundo todo como que havia parado com o único objetivo de observá-los. A ponte dos ingleses, lotada de pessoas, parecia vazia, como que tivesse sido feita apenas para aquele momento e para aquele casal. Eles permaneceram lá, daquele mesmo jeito, por muito tempo. E como se amavam.

dimanche, septembre 17, 2006

Paris

Paris era uma cidade tão linda, ainda mais naquela época do ano. Os flocos de neve descoloriam de forma cativante as ruas que dão acesso à famosa Torre Eiffel. Era uma das mais belas visões que alguém poderia ter.

Numa daquelas ruas havia um pequeno e charmoso bar parisiense. Num dos bancos do balcão sentava um homem, cuja tristeza não condizia com a alegria do local. Lá estava ele, sentado, olhando para a foto de uma mulher, enquanto balançava suavemente o copo cheio de conhaque.

Aquele senhor, que devia ter algo como 45 anos, tentava segurar as lágrimas que teimavam em rolar pelas suas faces brancas. Olhava para aquela foto, sem dizer uma só palavra. Seu olhar demonstrava a enorme desolação pela qual passava.

Estaria ele lamentando uma perda? Por acaso era sua esposa, que havia falecido? Ou fosse uma parente que há muito tempo não via? Não podia saber ao certo. Queria pergunta àquele homem o motivo de sua tristeza. Decidi não o fazer, pois não o queria o atrapalhar com o mero objetivo de saciar minha sádica curiosidade. Chamei o barman, e perguntei-lhe quem era aquele sujeito. Ele deu de ombros, dizendo que nunca o vira antes, e que já fazia umas três horas que ele estava lá, balançando aquele copo de conhaque e chorando silenciosamente.

Fiquei ali sentado tentando imaginar o que passava na cabeça daquele senhor. Pensava o que alguém tão triste faria naquele lugar tão alegre. Pensava como poderia alguém ficar tão deprimido numa cidade tão bonita. Pensava, apenas pensava.

De repente, ele cessa seu movimento quase hipnótico, toma o conhaque e sai, logo depois de pagar a conta.

Quase havia me esquecido daquele sujeito do bar quando, no dia seguinte, li o jornal. Lá estava a foto daquele senhor. Era um empresário bem sucedido, que havia acabado de ser deixado pela esposa. A policia afirmou que a única coisa que acharam junto ao corpo foi uma arma e a foto de uma mulher.

dimanche, septembre 10, 2006

Uma Flor

Era uma noite particularmente fria daquele ano de 1944 na pequena cidade de Birkenau, na Polônia. A lua, que costumava estar sempre bela, escondia-se por trás das cinzas que estavam em suspensão no ar, como que se estivesse envergonhada com o que presenciou por muitos anos em Auschiwtz.

Durante as últimas semanas as chaminés têm expelido muito mais fumaça que o normal. Isso era o reflexo do desespero de Berlim, que via o exército vermelho se aproximar cada vez mais.

Alguns soldados estavam conversando próximo da estação de trem, visivelmente preocupados com a derrota, que naquele momento, já era certa. Neste momento passam por eles várias mulheres judias, que estavam saindo diretamente da composição ferroviária para o “banho”. Todas elas tinham o cabelo raspado e as faces sujas. A maioria possuía a pele colada aos ossos, devido ao avançado estado de inanição. Aquelas judias já não refletiam mais a vida em seus olhos. Não pareciam mais com seres humanos, mas autômatos, totalmente desprovidas de vontade própria.

Depois da pequena caminhada, elas entraram na câmara, onde foram trancadas.

Desespero.

Gritos.

Silêncio.

Minutos depois os corpos daquelas mulheres eram atirados nas chamas dos fornos construídos especialmente para dar cabo à “Solução Final”. Novamente começava a fúnebre chuva de cinzas acompanhada do característico cheiro de carne e cabelo queimados. Aquela macabra precipitação já cobria todo o solo, que naquele momento tomava um lúgubre tom acinzalado.

Porém, no meio de todas aquelas cinzas, uma flor achou de brotar. Contrariando a lógica, aquela rosa cresceu e permaneceu ali, debilmente de pé. Desafiava as luzes dos postes de vigilância do campo, resistindo a todas as provações e colorindo com sua singela beleza aquele quadro tristemente monocromático. Lá estava ela, próxima das cercas elétricas, resistindo e corajosamente esperando que mãos dignas a viessem colher.

lundi, septembre 04, 2006

Enquanto Escrevo

Quando sento diante do meu bom e fiel celeron para escrever algumas linhas, o mundo ao meu redor parece parar. Fecho-me para o mundo real, para dedicar minha atenção apenas ao que escrevo. Mas a verdade é que o mundo não para. Muitas coisas acontecem enquanto estou aqui, conversando com as musas que rodeiam todos os escritores, mesmo aqueles que, como eu, são apenas amadores.

Neste exato momento, quem sabe, não esteja outra pessoa também escrevendo. Talvez alguém esteja lendo uma nova crônica do Airton Monte no jornal e sorrindo um pouco? Quiçá essa mesma pessoa esteja hoje se interessando pelo belíssimo mundo da escrita, e um dia se tornará também um cronista.

Neste mesmo momento um casal se conhece no calçadão da Praia do Futuro, sem saber que o destino de ambos estará enlaçado para o resto de suas vidas. Ao lado deste mesmo casal passa um senhor fazendo cooper a noite, lembrando como gostava de fazer isso com sua mulher, quando ela ainda estava viva.

Enquanto estou escrevendo, um homem solitário também está a produzir algumas linhas de um documento todo especial. Está escrevendo a última carta, na mesa de sua linda sala-de-apartamento-da-beira-mar, após ter descoberto da pior maneira possível que sua esposa de fato estava dormindo com Escobar, amigo seu de longa data, e que ele conhecera ainda na época de seminário, quando ambos pensavam em ser padres.

Agora mesmo um candidato passeia por entre o povo, se fazendo passar por um deles, conversando, convencendo, comprando.

Neste minuto um jovem reencontra sua namorada virtual, e com ela troca juras de amor, fotos, telefones, sem nunca saber que ela mora na porta ao lado, e que ambos poderiam encontrar pessoalmente seu amor verdadeiro, se apenas tivessem a coragem de dar seus endereços, sem ter medo de na verdade estarem falando com um seqüestrador que quer apenas conseguir dados para perpetrar uma ação delituosa.

Enquanto escrevo, o romântico está buscando sua amada, a imaginando, deitificando, adorando, se enamorando, antes mesmo de conhecê-la. E ela está lá, esperando, com uma flor na boca, pronta para ser colhida por ele, que a guardará consigo em seu peito, sem nunca ser ferido por sequer um dos espinhos.


Em homenagem ao grande escritor Airton Monte.

dimanche, août 27, 2006

Leitura

Caminhava por aqueles corredores lotados. Todos procuravam por um livro para comprar. Ele, no entanto, preferia observar as pessoas. Sentia uma felicidade imensa ao ver tanta gente, das mais diversas classes, buscando avidamente o universo da leitura. A satisfação enchia o seu peito.

Caminhava e via, de um lado, a pessoa mais simples vinda de um bairro pobre da capital, e do outro o Deputado Federal, acompanhado do Vice-Prefeito. Estavam todos dividindo aquele mesmo espaço, e buscavam a mesma coisa: deleitar-se com as palavras de algum escritor talentoso.

Caminhava e observava. Notou algumas crianças, sentadas no chão ouvindo histórias, e via ali o futuro do Brasil sendo construído. Nos olhos de cada criança via o brilho. Naquele exato momento os contadores de histórias despertavam nos pequenos o interesse pela cultura, escrita e leitura. Ele sabia que aquelas crianças estavam fadadas ao sucesso. Mais uma vez a felicidade inflou seu coração.

Caminhava e olhava as prateleiras, para ver se achava ele também um bom livro para tomar-lhe as horas do dia. Depois de tanto procurar, e de observar as pessoas, que brincavam e se divertiam com as páginas das obras literárias, achou o que queria. Voltou para casa com a certeza de que vira um dos fenômenos mais bonitos que poderia imaginar, e num local tão pouco provável. Tinha certeza de que ali vira o nascer do futuro da nação. E como estava feliz.

Comédias de uma vida cada vez mais literária.

dimanche, août 20, 2006

Brincando com os cabelos

Adorava a sensação de ter o corpo dela deitado sobre o seu, com aquela linda cabeça repousando sobre seus ombros. Brincava com seus dedos entre os cabelos dela. Sentia aquele perfume maravilhoso. Nunca se sentira tão feliz.

dimanche, août 13, 2006

Corações no Caderno

Ela estava de costas para ele. Seus cabelos negros pousavam formosamente sobre os ombros. Os seus cachos assemelhavam a pequenos pedaços do éden. Embora não pudesse ver, perdia-se imaginando aquele sorriso que já tinha vislumbrado diversas vezes. E como desejava que todos os sorrisos dela fossem só para ele.

O professor lhe chamava a atenção mais uma vez. Como podia ele se concentrar na aula, quando estava sentado bem atrás daquela menina que já era seu amor platônico há 6 meses? Será que o professor não podia entender aquilo? Ele só conseguia pensar nela, desde que acordava até a hora de dormir.

Olhou para a porta e lembrou-se como ela ficava linda ao entrar na sala, com o sol às suas costas, desenhando aquela belíssima silhueta, a fazendo brilhar como a de um anjo. A visão mais bela que alguém poderia ter.

E aquele perfume que ela usava? Parecia com jasmim combinado com tulipas. Por certo ele nunca sentira um cheiro tão agradável.

Não conseguia se concentrar na aula. O seu transe só foi quebrado quando o caderno dela caiu no chão, fazendo um barulho forte. Ele, como cavalheiro que era, apanhou-o e o entregou, mas não sem antes perceber algo que fez seu coração pular de alegria. Nas pontas das folhas haviam sido desenhados diversos corações, de todas as cores, com as inscrições dos nomes deles em cada um. Levantou a vista, entregou o caderno, tocando levemente os dedos de sua amada com os seus, sorrindo. Ela correspondeu o sorriso. Seu rosto era tão bonito.

Comédias de uma vida cada vez mais apaixonada.

dimanche, août 06, 2006

Lua de Mel

Estava sentado no quarto do hotel, admirando sua esposa. Haviam acabado de se casar, e fazer aquela viagem era um sonho antigo para ambos. Estava muit feliz.

Lembrou-se de quando a pediu em casamento. Recordou de quando escolheram o destino. Tinha na memória os minutos mágicos logo após a chegada deles àquela cidade. Era tudo mágico.

Olhava pela janela, admirando a beleza da cidade.

De repente, um barulho extranho invade o quarto. Parece uma sirene. Ele procurava por uma ambulância ou carro de polícia passando na rua, mas não viu nada. Quando levantou seus olhos, conseguiu divisar uma formação nebulosa peculiar. Parecia se prolongar no céu. Quando percebeu, era tarde demais. O seu hotel havia sido atingido por um míssil. Morreu ali mesmo, junto de sua esposa, no seu terceiro dia de casado. Os dois, como tantos outros, foram vítimas civis que passavam por Beirute.

Comédias de uma vida cada vez mais triste, em função da guerra.

dimanche, juillet 30, 2006

Culpa

c'est tout mon défaut

dimanche, juillet 23, 2006

Frustração

Ele tinha seu rosto coberto pelas mãos suadas. As lagrimas escorriam por entre seus dedos. A sua frustração era evidente.

dimanche, juillet 16, 2006

Receita de um amor inabalável

Pegue aquele olhar e junte com uma música de Roberto Carlos.

A isso acrescente várias estrelas, que devem polvilhar o céu de maneira maravilhosa. Adicione uma lua cheia, que deverá iluminar o casal.

Mecha a mistura até obter um pouco de paixão. A isso junte um belo sorriso dela e uma piscadela dele. Adicione beijos e abraços a gosto.

Depois disso, providencie uma troca de telefones. É importante também uma nova porção de encontros emocionantes.

Depois de trabalhar na massa durante algum tempo, lembre-se de peneirar, para tirar todos os sinais da mesmice e da rotina.

Junte-se um pouco de consciência, respeito, fidelidade e tolerância à mistura.

Depois de tudo isso, adicionem-se duas alianças, crianças e uma família feliz.

Esta é a receita de um amor inabalável.

dimanche, juillet 09, 2006

Vitória

Era uma noite clara, repleta de estrelas. A lua parecia iluminar a todos que ali, calmamente esperavam. Estavam todos ansiosos, esperando pelo resultado que demorava a sair.

A noite passava, a tensão aumentava, as unhas, roídas, diminuíam a ponto de começar a atingir os dedos. Aquela sensação, que lhes era tão familiar, estava especialmente forte.

Os ponteiros do relógio pareciam dançar, sem a mínima vontade de se mover, enquanto a angústia deles aumentava. Até que enfim, ouvem um ruído característico de uma porta se abrindo. Todos correm em direção àquele jovem de longos cabelos, como que leões a avançar para cima de sua presa indefesa.

Silencio.

O pequeno rapaz, do alto de seus 1,65m, mostrava uma face tão apreensiva quanto a dos outros. Levantou o papel em sua mão e leu em voz alta o resultado.

Silencio novamente.

Eles pareciam não acreditar no que ouviram. Uma forte emoção começava a borbulhar no sangue de cada um deles. Era a sensação de uma missão cumprida. Eles haviam conseguido. A alegria aflorava de seus rostos jovens e belos. Não se contiam em si mesmos. Pulavam, se abraçavam, corriam, gritavam. Sim, eles conseguiram, e de maneira majestosa. Conseguiram como poucos conseguiram antes. E comemoraram, certos de que aquele seria apenas o começo de grandes coisas por vir.

Comédias de uma vida cada vez mais vitoriosa.

dimanche, juillet 02, 2006

Analista

Aquele era um dia especialmente frio em seu consultório. Estava mais uma vez sentado em sua confortável cadeira, enquanto ouvia o que o seu paciênte tinha a dizer.

No início era agradável, mas com o tempo passou a odiar o que fazia. Talvez porque partilhava dos problemas de todos, e não tinha com quem partilhar os seus.

As vezes achava seus pacientes tão mesquinhos. Enquanto eles falavam, ele pensava "meu Deus, homem, arrume uma vida e larga logo do pé da tua mãe" ou "o mundo não gira em torno de você". Tinha vontade de externar seus sentimentos, mas sempre dizia para eles: "trabalhe mais nisso. Tudo vai ficar bem". Outras vezes divagava sobre a possibilidade de jantar fora com sua esposa, ou se tinha pago a conta de luz, só para ser interrompido por seu paciente chato, que queria se tratar. "Me deixa em paz", pensava.

Tudo o que ele queria era apenas usar do tratamento do "joelhaço". "Ah se eu fosse o Analista de Bajé".

dimanche, juin 25, 2006

Prólogo de Uma Vida Perfeita

Fechou os olhos. A musica do saxofone penetrava-lhe os ouvidos de forma extremamente suave e prazerosa. E como adorava o jazz.

Ao voltar à realidade, viu aquela mulher deslumbrante sentada a sua frente, trajando um vestido vermelho que reluzia em sua face clara. O rosto dela, afilado como uma pétala de rosa, trazia uma beleza indescritível. Suas mãos eram suaves como a seda chinesa que compunha a roupa que ela usava. Seus dedos eram finos como os de uma pianista. Sua boca era como um mar em que ele desejava se afogar. Sua beleza ficou ainda maior quando ela corou com aqueles olhares apaixonados lançados por ele. Como ele adorava quando ela corava. E ela não podia esconder um sorriso apaixonado que dançava lindamente sobre aqueles lábios delicados.

Haviam sido presenteados com a melhor mesa da casa. Ele havia combinado com o musico, amigo seu, para tocar as músicas mais românticas de seu repertório. Aquela noite seria especial.

Enquanto a admirava, pôs-se a lembrar da tarde daquele mesmo dia, quando estava na joalheria escolhendo o anel que iria lhe dar. Dentre todos, um chamou sua atenção. Sua delicadeza e beleza o faziam lembrar dela. Decidiu que aquele seria o que iria levar. Lembrava de seus encontros com ela, sempre românticos e apaixonantes. Lembrava do dia que se conheceram, quase por um passe de mágica. Lembrava de seu pretérito-mais-que-perfeito com ela e imaginava a vida a dois que estavam prestes a compartilhar.

Ela pareceu não ligar enquanto ele checava o bolso do paletó em busca do presente dela. Ele tirou a caixa de veludo ali mesmo, se ajoelhando e fazendo a pergunta que ela mais esperava. Sua face corou mais ainda, aumentando sua perfeição a níveis incalculáveis. Outra resposta não poderia dar senão o “sim”. Ele colocou o anel no dedo dela e a beijou como nunca havia feito antes, ao som do mais belo saxofone.

Comédias de uma vida perfeita.

dimanche, juin 18, 2006

Pôr-do-sol

Ele estava lá, admirando aquele belíssimo pôr-do-sol que só mostra sua real perfeição na Ponte dos Ingleses, em Fortaleza. Aquele tom de vermelho quase laranja colorindo o céu como uma verdadeira pintura de Monet, misturando-se com a cor dos verdes mares da praia de Iracema. Não podia pensar em alguma cena mais bonita em toda a sua vida. Estava tão absorto em sua observação que não percebeu que alguém estava ao seu lado direito, também admirando aquela imagem digna de uma aquarela.

Movido por uma intensa vontade e sem saber o real motivo, virou seu rosto o suficiente para perceber uma belíssima silhueta de uma mulher ruiva, branca, de estatura mediana, com o rosto afilado e tão familiar. Tinha reconhecido na hora a mulher por quem tinha sido apaixonado na sua infância e para a qual nunca teve coragem de contar o que sentia. Sempre admirou aquela beleza, que estava ali, parada ao seu lado, ainda perfeita, como ele lembrava, ressaltada por aquela obra divina que só pode ser visualizada num belíssimo fim de tarde na capital do estado do Ceará.

Finalmente tomou coragem e falou-lhe um envergonhado “oi”. Ficou tomado pela surpresa quando ela exclamou com muita felicidade em “olá” e abraçou-lhe fortemente. Sem que notasse, o perfume dos cabelos dela lhe encheu as narinas com um doce aroma de lírios brancos. Fechou os olhos, sem que ninguém percebesse, e lembrou-se de como adorava aquele cheiro.

Ficaram lá, observando o pôr-do-sol e conversando sobre tudo que tinha acontecido na vida de cada um desde que ambos pararam de se ver. O sorriso no rosto dos dois não negava a felicidade que cada um sentia.

As mãos dele começaram a ficar trêmulas. Finalmente havia decidido falar-lhe sobre sua paixão infantil, e que nunca havia contado pois achava que não tinha a menor chance com ela. As palavras fluíram de sua boca com uma imensa e impressionável facilidade, como se tivesse ensaiado por anos o que deveria falar. Ao ouvir o que ele tinha a lhe dizer, ela sorriu largamente, colheu-lhe as mãos e o beijou de como nunca beijara alguém antes, para depois por seus dedos no rosto dele e dizer que o amor dele era por ela correspondido. Contou-lhe que desenhava todos os dias no seu caderno um coração contendo o nome dos dois, e que o olhava durante a aula e suspirava. Ele apertou a mão dela mais uma vez e tocou os lábios dela com os seus, de uma forma que há muitos anos sonhara fazer.

Começaram a namorar naquele mesmo dia, e até hoje contam a quem quiser ouvir a sua história de amor.

Comédias de uma vida cada vez mais apaixonada.

dimanche, juin 11, 2006

Felicidade

Estava lá, sentado no sofá, olhando pela janela para uma noite escura, como que esta refletisse sua própria alma. O céu estava nublado, assim como seu coração. Não podia parar de pensar nela.

A imagem de sua esposa na semana anterior não saia de sua cabeça. Ele a tinha visto numa tórrida cena de amor com um vizinho. Impossibilitado de fazer algo, virou-se de costas e deixou o apartamento, sem que ela sequer notasse sua breve presença.

Todos os dias daquela semana ele voltava para casa, a encontrava e se punha a chorar. Ela, sem saber o motivo, procurava o encorajar. “Amor, resolva esse problema que o aflige” dizia ela, sem saber a causa daquele choro todo.

A família dele o levou algumas vezes para fazer compras, coroando a máxima da sociedade consumista em que viviam, em que todos devem ser felizes 24 horas por dia, sob pena de não serem perfeitos. E ele permanecia lá, em sua tristeza, querendo que o mundo entendesse que ele não queria estar alegre. Simplesmente não queria.

Foi por certo a semana mais difícil de sua vida. Pensava se a sua vida teria valido a pena. Pensava o que fez de errado no seu casamento. Pensava o que ela via no outro. Pensava. Pensava. Pensava.

Enquanto isto, a fumaça fazia um suave desenho ao sair do cano de seu revolver.

dimanche, juin 04, 2006

Ao Leitor

Raras são as vezes em que eu me reporto diretamente ao leitor. Esta é uma delas.

A maioria das vezes que me encontro aqui tentando escrever algo não tenho uma idéia fixa do que quero tratar, até que abro o editor de texto, me ponho a olhar àquela tela em branco e começo a namorar com o teclado e manter uma relação amorosa com as palavras. Outras vezes fico como hoje, a falar muito sobre coisa alguma.

Isso acontece porque todos os domingos, por volta desta mesma hora eu venho por aqui e escrevo algo. Fico a esperar algum comentário, que na maioria das vezes não vem. Naturalmente sei que isso não é sinônimo de desgosto por sua parte, leitor, já que tenho uma média de 7 a 8 acessos por dia, cada um com uma média de 2 minutos e meio de leitura.

Esse elevado número de leituras por dia, no entanto, me faz cumprir uma rotina quase religiosa de orar a Deus pela inspiração que muitas vezes não vem.

Mais uma vez me encontro a dissertar sobre coisa alguma. No entanto esse monte de “nada” que compartilho com meus leitores vale muito mais que muitos “alguma coisa” compartilhados com certas pessoas.

Comédias da vida de um escritor em busca de inspiração.