dimanche, novembre 05, 2006

Turismo

Ele e sua namorada esperavam ansiosamente no lobby do hotel. Já fazia alguns minutos que eles tinham pedido que a recepcionista ligasse para o quarto 605 e avisasse que já estavam esperando. Ele estava visivelmente tenso. É que já fazia mais de 6 anos que ele não via a moça que estava hospedada naquele quarto. O casal, que aguardava ansiosamente, olhava apreensivo para o elevador. Os momentos passam de forma vagarosa, até que finalmente a porta se abre. Lá estava a irmã dele, junto com o namorado, saindo do elevador. Ela estava deslumbrante, cheirosa, sorridente, com os cabelos loiros presos, formando um belíssimo rabo de cavalo descendo-lhe levemente pelas costas. Era exatamente como ele lembrava. Abraçaram-se e, mais que de repente, todo o nervosismo se dissipou.

Saíram juntos os quatro, para conhecer a bela cidade de Fortaleza. O irmão levou a irmã aos pontos turísticos que mais gostava, na esperança que estes também se tornassem também os preferidos dela, e ela o ligasse a eles, para quando ouvisse falar de algum deles, lembrasse de seu rosto e do bom momento que passaram juntos, irmão e irmã, acompanhados de sua namorada e namorado.

Visitaram o Centro Cultural Dragão do Mar, passeando por entre as obras e deixando-se viajar no reino da imaginação proporcionada pela beleza do local.

Depois se dirigiram à Ponte dos Ingleses, ou Ponte Metálica, para os íntimos, local dos eternos namorados que vivem na Terra da Luz. Ali ele, o irmão, abraçou sua namorada, e percebeu que sua irmã igualmente era abraçada pelo seu namorado, pois que ambos os casais achavam-se rendidos à magia romântica da noite fortalezense, infinitamente aumentada pelo bater do mar nas rochas que se encontravam abaixo de seus pés.

Por ultimo, se encaminharam a um famoso restaurante da cidade, para degustarem pratos típicos da capital cearense. Estavam lá os quatro, sorrindo e se divertindo, com as conversas regadas à água de coco e refrigerante com limão, acompanhado de saborosa peixada.

Ao fim da noite, o casal anfitrião foi acompanhado pelo casal visitante até o local onde eles haviam deixado o carro. Ele, irmão, abraçou fortemente ela, irmã, e confidenciou-lhe que sentia muito sua falta, muito embora as peripécias do destino os tivessem separado em um passado distante, e que ela é uma pessoa importantíssima para ele. Abraçou-a fortemente, deixando transparecer que, embora ainda estivessem juntos, já sentia sua falta. Mais uma vez despediram-se, e seguiram seus caminhos, na esperança de poderem se encontrar novamente um dia.

Comédias de uma vida cada vez mais esperançosa.

dimanche, octobre 29, 2006

Engenhosidade

Muitos o chamavam de louco. “Voar é coisa pra pássaro”, diziam. “Deixa de loucura, rapaz”, falavam. Tentaram o desiludir, mas não conseguiram, pois ele era, antes de tudo, um brasileiro, e não desistia nunca.

Gastou anos perseguindo um sonho. Construiu diversos balões que encantaram a cidade luz, mas não era o suficiente, pois ele não podia ir para onde queria neles. Voltou à oficina e aos projetos.

Anos depois decolava seu primeiro balão dirigível, deixando a capital do mundo de boca aberta, mas não era o suficiente, pois não era um objeto mais pesado que o ar. Voltou à oficina e aos projetos.

Mais algum tempo se passou, e mais uma vez estava ele lá, tentando, pela 14ª vez, realizar seu sonho. Começava a acelerar. O vento corria pelo seu rosto de uma forma deliciosa. A velocidade aumentava, elevando também a adrenalina. O seu coração começava a levantar vôo, junto com sua máquina voadora. De repente lá estava ele, 2 metros do solo, sob os olhares de diversos parisienses que admiravam aquele homem que outrora fora chamado de louco. O mundo nunca mais foi o mesmo.

Uma singela homenagem à Alberto Santos Dumont, que em 23 de outubro de 1906 decolava na primeira maquina mais leve do que o ar a alçar vôo, o 14-Bis.

dimanche, octobre 22, 2006

Fazenda

- Amor, você não sabe o que houve. Os sem-terra invadiram a fazenda do meu pai.

- Interessante. Você sempre defendeu os sem-terra.

- Eu, defender aqueles vagabundos?

- É sim. Eu até te vi numa passeata do MST uma vez, na faculdade.

- É verdade... Mas é que agora é diferente.

- Diferente por quê?

- Porque é a fazenda do meu pai. É minha herança, não dos outros.

- Sei não, mas tou te achando muito nefelibata.

dimanche, octobre 15, 2006

Brinde

Os dois estavam sentados na cama, com as lágrimas rolando pelo rosto. Estavam tão tristes, decepcionados, desapontados.

Ela argumentava que a vida não fazia mais sentido. Ele dizia que ambos ainda tinham um ao outro. E como estavam deprimidos.

Depois de muito conversar, ele viu que só havia uma saída. Foi junto com ela à pequena loja na frente da casa deles. Dirigiu-se à sua mesa de trabalho, que era, por certo, a mais bonita que um boticário pobre poderia comprar. Pegou alguns frascos, misturou e serviu em duas taças. Os dois levantaram os copos e brindaram, saboreando posteriormente, como a um doce vinho.

Passado aquele macabro brinde, ambos se deitaram, abraçados, ela na frente, ele atrás, com as mãos entrelaçadas.

jeudi, octobre 05, 2006

Literário

Ele estava apreensivo. Fazia mais ou menos dois meses que tinha se inscrito num concurso literário da repartição onde trabalha, feito em homenagem a uma grande autora cearense. Ele havia escolhido um de seus melhores textos, intitulado "Ponto e Vírgula", adaptou e enviou à comissão avaliadora. Estava tão ansioso em participar que protocolou sua inscrição com o número 001, talvez no desejo de que "brevidade" fosse um dos quesitos a serem avaliados.

Os dois meses que separaram a data da inscrição e a divulgação do resultado foram particularmente longos. Aqueles minutos que antecediam o anuncio oficial do resultado, como não poderia deixar de ser, pareciam demorar anos para passar. Os ponteiros do relógio pareciam faceiramente preguiçosos, temerosos de dar mais um passo adiante.

Os olhos vidrados na tela do computador, por onde seria anunciado o resultado. Aperta o botão atualizar no Internet Explorer. Nada. Pressiona o botão F5, como se o computador fizesse alguma diferença entre o botão do teclado e o do navegador, que fazem rigorosamente a mesma coisa. Nada. Praguejou baixinho contra o sistema de informática. Nada.

Quando já havia desistido, a rádio do local de trabalho começa a anunciar os nomes. A tensão, local e arterial, começa a subir. Ouvidos atentos. 1º lugar. Nada. 2º lugar. Nada. 3º lugar. Nada. 4º lugar. Nada. Já havia perdido as esperanças quando ouve o seu nome ser falado pela locutora, como classificado em 5º. Uma sensação de alegria invade o seu peito. Não ganhou o computador ou os livros que ficaram reservados aos três primeiros colocados, mas a simples sensação de reconhecimento já era prêmio o bastante. Um sorriso profundo se desenhou em seu rosto e a felicidade invadiu seu peito. Ele também se tornou mais um blogueiro a deixar o ao nonimato da internet.

Comédias de uma vida longe de ser privada.

dimanche, octobre 01, 2006

Eleições

Lá estava ele, sentado no velho banco da praça. Lembrava-se de quando a conhecera ali mesmo, há tantos anos, num dia de eleições, como aquele. Ele já havia votado, quando ela sentou do seu lado e começou a conversar:

- Em quem você vai votar?
- Eu já votei.
- Em quem você votou?
- No Juscelino Kubitscheck.
- Eu não voto nele não. Perece muito idealista.

E naquele momento ambos se sorriram. Depois de algumas horas, ambos se levantaram e achavam que nunca mais iriam se encontrar.

Acontece que o destino o uniu outra vez, naquele mesmo banco, num outro dia de eleição.

- Olá.
- Oi! Quanto tempo ein?
- É verdade. Parece que você acertou na sua escolha não é? Juscelino foi eleito, e até que ta fazendo um bom governo.
- Verdade.

Mais uma vez se sorriram e conversaram a tarde inteira. Daquela vez, antes de se despedirem, marcaram de se encontrar uma outra vez, afinal, se o destino o fez se encontrarem por duas vezes, deveria ser porque reservava algo pros dois. Pouco tempo depois estavam namorando.

Outra eleição se aproximava, e eles marcaram de se encontrar, antes de irem votar, naquele mesmo banco em que se conheceram. Quando ela chegou, ele já estava lá, esperando. Conversaram um pouco quando ele, meio nervoso, colocou a mão no bolso, para tirar uma caixinha preta. Ajoelhou-se no cimento quente e ali mesmo a pediu em casamento, e ouviu o “sim”.

Antes de votar eles sempre se encontravam naquela praça, como que se fosse pela primeira vez. E como que se fosse a primeira vez, se enamoravam novamente.

Dessa forma muitas eleições se passaram, mas nessa o encontro não se repetiria. Ele fitava o horizonte, nutrindo uma falsa esperança, fonte de uma tolice inerente a alma de cada ser humano. “Ela já era muito idosa”, ele pensava. Uma lágrima escorria pelo seu rosto.

samedi, septembre 30, 2006

Novo Blog

Venho aqui anunciar que estou começando um novo blog, o Considerações Políticas. Quero avisar que continuarei aqui, todos os domingos, postando uma nova crônica, mas também postarei lá, uma vez por semana, e peço a vocês, amigos leitores, que acompanhem e comentem os dois.

Muito obrigado.

dimanche, septembre 24, 2006

"The Way You Look Tonight"

Fazia algumas semanas que eles decidiram comemorar seu quinto aniversário de namoro no café que fica próximo à escada vermelha do Dragão do Mar. De fato aquele ambiente era muito romântico, e foi escolhido a dedo. A iluminação era perfeita, a refeição, soberba, o amor, sublime.

Ele a olhava com paixão. Como ela estava linda sob aquela luz. A cor branca de sua roupa realçava as suas bochechas, que tinham um belíssimo tom de rosa. Como aqueles dois se amavam.

Ela o olhava, deixando o amor transbordar pelos seus olhos. Admirava a forma que ele a observava. Divertia-se com classe improvisada dele numa situação que ambos não estavam acostumados a viver.

De repente alguém lá embaixo liga o som de um carro, e a musica que toca não poderia ser mais oportuna. A voz de Rod invadia o ambiente. De fato, como Stewart falava, ele a amava “just the way you look tonight”. Enquanto ele cantarolava a música, um tanto desafinado, naturalmente, ela se sorria, com visível felicidade por aquele dia especial.

Depois partiram rumo à ponte dos ingleses. Embora aquela paisagem seja extremamente bonita, ele não conseguia tirar os olhos do rosto dela. Como ele gostava da forma que a lua iluminava seu sorriso. E ele sorria também, enquanto diversos versos de Tom Jobim vinham à sua mente. As vezes ele deixava que alguns lhe escapassem pelos lábios. Ela sorvia cada palavra com um prazer indizível.

As horas passaram rapidamente, mas eles permaneceram ali, abraçados, olhando para o horizonte, naquele momento o mundo todo como que havia parado com o único objetivo de observá-los. A ponte dos ingleses, lotada de pessoas, parecia vazia, como que tivesse sido feita apenas para aquele momento e para aquele casal. Eles permaneceram lá, daquele mesmo jeito, por muito tempo. E como se amavam.

dimanche, septembre 17, 2006

Paris

Paris era uma cidade tão linda, ainda mais naquela época do ano. Os flocos de neve descoloriam de forma cativante as ruas que dão acesso à famosa Torre Eiffel. Era uma das mais belas visões que alguém poderia ter.

Numa daquelas ruas havia um pequeno e charmoso bar parisiense. Num dos bancos do balcão sentava um homem, cuja tristeza não condizia com a alegria do local. Lá estava ele, sentado, olhando para a foto de uma mulher, enquanto balançava suavemente o copo cheio de conhaque.

Aquele senhor, que devia ter algo como 45 anos, tentava segurar as lágrimas que teimavam em rolar pelas suas faces brancas. Olhava para aquela foto, sem dizer uma só palavra. Seu olhar demonstrava a enorme desolação pela qual passava.

Estaria ele lamentando uma perda? Por acaso era sua esposa, que havia falecido? Ou fosse uma parente que há muito tempo não via? Não podia saber ao certo. Queria pergunta àquele homem o motivo de sua tristeza. Decidi não o fazer, pois não o queria o atrapalhar com o mero objetivo de saciar minha sádica curiosidade. Chamei o barman, e perguntei-lhe quem era aquele sujeito. Ele deu de ombros, dizendo que nunca o vira antes, e que já fazia umas três horas que ele estava lá, balançando aquele copo de conhaque e chorando silenciosamente.

Fiquei ali sentado tentando imaginar o que passava na cabeça daquele senhor. Pensava o que alguém tão triste faria naquele lugar tão alegre. Pensava como poderia alguém ficar tão deprimido numa cidade tão bonita. Pensava, apenas pensava.

De repente, ele cessa seu movimento quase hipnótico, toma o conhaque e sai, logo depois de pagar a conta.

Quase havia me esquecido daquele sujeito do bar quando, no dia seguinte, li o jornal. Lá estava a foto daquele senhor. Era um empresário bem sucedido, que havia acabado de ser deixado pela esposa. A policia afirmou que a única coisa que acharam junto ao corpo foi uma arma e a foto de uma mulher.

dimanche, septembre 10, 2006

Uma Flor

Era uma noite particularmente fria daquele ano de 1944 na pequena cidade de Birkenau, na Polônia. A lua, que costumava estar sempre bela, escondia-se por trás das cinzas que estavam em suspensão no ar, como que se estivesse envergonhada com o que presenciou por muitos anos em Auschiwtz.

Durante as últimas semanas as chaminés têm expelido muito mais fumaça que o normal. Isso era o reflexo do desespero de Berlim, que via o exército vermelho se aproximar cada vez mais.

Alguns soldados estavam conversando próximo da estação de trem, visivelmente preocupados com a derrota, que naquele momento, já era certa. Neste momento passam por eles várias mulheres judias, que estavam saindo diretamente da composição ferroviária para o “banho”. Todas elas tinham o cabelo raspado e as faces sujas. A maioria possuía a pele colada aos ossos, devido ao avançado estado de inanição. Aquelas judias já não refletiam mais a vida em seus olhos. Não pareciam mais com seres humanos, mas autômatos, totalmente desprovidas de vontade própria.

Depois da pequena caminhada, elas entraram na câmara, onde foram trancadas.

Desespero.

Gritos.

Silêncio.

Minutos depois os corpos daquelas mulheres eram atirados nas chamas dos fornos construídos especialmente para dar cabo à “Solução Final”. Novamente começava a fúnebre chuva de cinzas acompanhada do característico cheiro de carne e cabelo queimados. Aquela macabra precipitação já cobria todo o solo, que naquele momento tomava um lúgubre tom acinzalado.

Porém, no meio de todas aquelas cinzas, uma flor achou de brotar. Contrariando a lógica, aquela rosa cresceu e permaneceu ali, debilmente de pé. Desafiava as luzes dos postes de vigilância do campo, resistindo a todas as provações e colorindo com sua singela beleza aquele quadro tristemente monocromático. Lá estava ela, próxima das cercas elétricas, resistindo e corajosamente esperando que mãos dignas a viessem colher.

lundi, septembre 04, 2006

Enquanto Escrevo

Quando sento diante do meu bom e fiel celeron para escrever algumas linhas, o mundo ao meu redor parece parar. Fecho-me para o mundo real, para dedicar minha atenção apenas ao que escrevo. Mas a verdade é que o mundo não para. Muitas coisas acontecem enquanto estou aqui, conversando com as musas que rodeiam todos os escritores, mesmo aqueles que, como eu, são apenas amadores.

Neste exato momento, quem sabe, não esteja outra pessoa também escrevendo. Talvez alguém esteja lendo uma nova crônica do Airton Monte no jornal e sorrindo um pouco? Quiçá essa mesma pessoa esteja hoje se interessando pelo belíssimo mundo da escrita, e um dia se tornará também um cronista.

Neste mesmo momento um casal se conhece no calçadão da Praia do Futuro, sem saber que o destino de ambos estará enlaçado para o resto de suas vidas. Ao lado deste mesmo casal passa um senhor fazendo cooper a noite, lembrando como gostava de fazer isso com sua mulher, quando ela ainda estava viva.

Enquanto estou escrevendo, um homem solitário também está a produzir algumas linhas de um documento todo especial. Está escrevendo a última carta, na mesa de sua linda sala-de-apartamento-da-beira-mar, após ter descoberto da pior maneira possível que sua esposa de fato estava dormindo com Escobar, amigo seu de longa data, e que ele conhecera ainda na época de seminário, quando ambos pensavam em ser padres.

Agora mesmo um candidato passeia por entre o povo, se fazendo passar por um deles, conversando, convencendo, comprando.

Neste minuto um jovem reencontra sua namorada virtual, e com ela troca juras de amor, fotos, telefones, sem nunca saber que ela mora na porta ao lado, e que ambos poderiam encontrar pessoalmente seu amor verdadeiro, se apenas tivessem a coragem de dar seus endereços, sem ter medo de na verdade estarem falando com um seqüestrador que quer apenas conseguir dados para perpetrar uma ação delituosa.

Enquanto escrevo, o romântico está buscando sua amada, a imaginando, deitificando, adorando, se enamorando, antes mesmo de conhecê-la. E ela está lá, esperando, com uma flor na boca, pronta para ser colhida por ele, que a guardará consigo em seu peito, sem nunca ser ferido por sequer um dos espinhos.


Em homenagem ao grande escritor Airton Monte.

dimanche, août 27, 2006

Leitura

Caminhava por aqueles corredores lotados. Todos procuravam por um livro para comprar. Ele, no entanto, preferia observar as pessoas. Sentia uma felicidade imensa ao ver tanta gente, das mais diversas classes, buscando avidamente o universo da leitura. A satisfação enchia o seu peito.

Caminhava e via, de um lado, a pessoa mais simples vinda de um bairro pobre da capital, e do outro o Deputado Federal, acompanhado do Vice-Prefeito. Estavam todos dividindo aquele mesmo espaço, e buscavam a mesma coisa: deleitar-se com as palavras de algum escritor talentoso.

Caminhava e observava. Notou algumas crianças, sentadas no chão ouvindo histórias, e via ali o futuro do Brasil sendo construído. Nos olhos de cada criança via o brilho. Naquele exato momento os contadores de histórias despertavam nos pequenos o interesse pela cultura, escrita e leitura. Ele sabia que aquelas crianças estavam fadadas ao sucesso. Mais uma vez a felicidade inflou seu coração.

Caminhava e olhava as prateleiras, para ver se achava ele também um bom livro para tomar-lhe as horas do dia. Depois de tanto procurar, e de observar as pessoas, que brincavam e se divertiam com as páginas das obras literárias, achou o que queria. Voltou para casa com a certeza de que vira um dos fenômenos mais bonitos que poderia imaginar, e num local tão pouco provável. Tinha certeza de que ali vira o nascer do futuro da nação. E como estava feliz.

Comédias de uma vida cada vez mais literária.

dimanche, août 20, 2006

Brincando com os cabelos

Adorava a sensação de ter o corpo dela deitado sobre o seu, com aquela linda cabeça repousando sobre seus ombros. Brincava com seus dedos entre os cabelos dela. Sentia aquele perfume maravilhoso. Nunca se sentira tão feliz.

dimanche, août 13, 2006

Corações no Caderno

Ela estava de costas para ele. Seus cabelos negros pousavam formosamente sobre os ombros. Os seus cachos assemelhavam a pequenos pedaços do éden. Embora não pudesse ver, perdia-se imaginando aquele sorriso que já tinha vislumbrado diversas vezes. E como desejava que todos os sorrisos dela fossem só para ele.

O professor lhe chamava a atenção mais uma vez. Como podia ele se concentrar na aula, quando estava sentado bem atrás daquela menina que já era seu amor platônico há 6 meses? Será que o professor não podia entender aquilo? Ele só conseguia pensar nela, desde que acordava até a hora de dormir.

Olhou para a porta e lembrou-se como ela ficava linda ao entrar na sala, com o sol às suas costas, desenhando aquela belíssima silhueta, a fazendo brilhar como a de um anjo. A visão mais bela que alguém poderia ter.

E aquele perfume que ela usava? Parecia com jasmim combinado com tulipas. Por certo ele nunca sentira um cheiro tão agradável.

Não conseguia se concentrar na aula. O seu transe só foi quebrado quando o caderno dela caiu no chão, fazendo um barulho forte. Ele, como cavalheiro que era, apanhou-o e o entregou, mas não sem antes perceber algo que fez seu coração pular de alegria. Nas pontas das folhas haviam sido desenhados diversos corações, de todas as cores, com as inscrições dos nomes deles em cada um. Levantou a vista, entregou o caderno, tocando levemente os dedos de sua amada com os seus, sorrindo. Ela correspondeu o sorriso. Seu rosto era tão bonito.

Comédias de uma vida cada vez mais apaixonada.

dimanche, août 06, 2006

Lua de Mel

Estava sentado no quarto do hotel, admirando sua esposa. Haviam acabado de se casar, e fazer aquela viagem era um sonho antigo para ambos. Estava muit feliz.

Lembrou-se de quando a pediu em casamento. Recordou de quando escolheram o destino. Tinha na memória os minutos mágicos logo após a chegada deles àquela cidade. Era tudo mágico.

Olhava pela janela, admirando a beleza da cidade.

De repente, um barulho extranho invade o quarto. Parece uma sirene. Ele procurava por uma ambulância ou carro de polícia passando na rua, mas não viu nada. Quando levantou seus olhos, conseguiu divisar uma formação nebulosa peculiar. Parecia se prolongar no céu. Quando percebeu, era tarde demais. O seu hotel havia sido atingido por um míssil. Morreu ali mesmo, junto de sua esposa, no seu terceiro dia de casado. Os dois, como tantos outros, foram vítimas civis que passavam por Beirute.

Comédias de uma vida cada vez mais triste, em função da guerra.

dimanche, juillet 30, 2006

Culpa

c'est tout mon défaut

dimanche, juillet 23, 2006

Frustração

Ele tinha seu rosto coberto pelas mãos suadas. As lagrimas escorriam por entre seus dedos. A sua frustração era evidente.

dimanche, juillet 16, 2006

Receita de um amor inabalável

Pegue aquele olhar e junte com uma música de Roberto Carlos.

A isso acrescente várias estrelas, que devem polvilhar o céu de maneira maravilhosa. Adicione uma lua cheia, que deverá iluminar o casal.

Mecha a mistura até obter um pouco de paixão. A isso junte um belo sorriso dela e uma piscadela dele. Adicione beijos e abraços a gosto.

Depois disso, providencie uma troca de telefones. É importante também uma nova porção de encontros emocionantes.

Depois de trabalhar na massa durante algum tempo, lembre-se de peneirar, para tirar todos os sinais da mesmice e da rotina.

Junte-se um pouco de consciência, respeito, fidelidade e tolerância à mistura.

Depois de tudo isso, adicionem-se duas alianças, crianças e uma família feliz.

Esta é a receita de um amor inabalável.

dimanche, juillet 09, 2006

Vitória

Era uma noite clara, repleta de estrelas. A lua parecia iluminar a todos que ali, calmamente esperavam. Estavam todos ansiosos, esperando pelo resultado que demorava a sair.

A noite passava, a tensão aumentava, as unhas, roídas, diminuíam a ponto de começar a atingir os dedos. Aquela sensação, que lhes era tão familiar, estava especialmente forte.

Os ponteiros do relógio pareciam dançar, sem a mínima vontade de se mover, enquanto a angústia deles aumentava. Até que enfim, ouvem um ruído característico de uma porta se abrindo. Todos correm em direção àquele jovem de longos cabelos, como que leões a avançar para cima de sua presa indefesa.

Silencio.

O pequeno rapaz, do alto de seus 1,65m, mostrava uma face tão apreensiva quanto a dos outros. Levantou o papel em sua mão e leu em voz alta o resultado.

Silencio novamente.

Eles pareciam não acreditar no que ouviram. Uma forte emoção começava a borbulhar no sangue de cada um deles. Era a sensação de uma missão cumprida. Eles haviam conseguido. A alegria aflorava de seus rostos jovens e belos. Não se contiam em si mesmos. Pulavam, se abraçavam, corriam, gritavam. Sim, eles conseguiram, e de maneira majestosa. Conseguiram como poucos conseguiram antes. E comemoraram, certos de que aquele seria apenas o começo de grandes coisas por vir.

Comédias de uma vida cada vez mais vitoriosa.

dimanche, juillet 02, 2006

Analista

Aquele era um dia especialmente frio em seu consultório. Estava mais uma vez sentado em sua confortável cadeira, enquanto ouvia o que o seu paciênte tinha a dizer.

No início era agradável, mas com o tempo passou a odiar o que fazia. Talvez porque partilhava dos problemas de todos, e não tinha com quem partilhar os seus.

As vezes achava seus pacientes tão mesquinhos. Enquanto eles falavam, ele pensava "meu Deus, homem, arrume uma vida e larga logo do pé da tua mãe" ou "o mundo não gira em torno de você". Tinha vontade de externar seus sentimentos, mas sempre dizia para eles: "trabalhe mais nisso. Tudo vai ficar bem". Outras vezes divagava sobre a possibilidade de jantar fora com sua esposa, ou se tinha pago a conta de luz, só para ser interrompido por seu paciente chato, que queria se tratar. "Me deixa em paz", pensava.

Tudo o que ele queria era apenas usar do tratamento do "joelhaço". "Ah se eu fosse o Analista de Bajé".